• Sara Barbot

Como lidar com as birras em casa?

Um dos grandes desafios para quem tem filhos é, sem dúvida, o de lidar com as birras. Muitos são os pais que pedem ajuda na minha consulta porque as birras dos filhos, de tão intensas e frequentes, interferem não só com a rotina diária, dificultando-a, mas também com as relações familiares. Tanto dos pais com os filhos, como dos pais um com o outro. Porque todos acabam zangados, de tão cansados, de tão aflitos e de tão culpabilizados que se sentem. E às vezes basta acordar, porque as birras começam logo de manhã no vestir, prolongam-se nas refeições e continuam na hora de ir para a cama. E lá vai mais um dia difícil, quando tudo o que se queria era estar junto, era abraçar, era amar. Mas então o que fazer quando o cenário é de “guerra”? Preparei um pequeno guião, que espero que vos ajude.


Quando o cenário é frequentemente de conflito e birras o que se deve fazer é precisamente reforçar e intensificar o que sempre se desejou, a proximidade, os abraços e o amor. Porque, apesar de cada família ser única na sua dinâmica e merecer um olhar individualizado, a verdade é que há alguns fatores que creio serem transversais a todas as famílias e que poderão auxiliar nestes momentos com os mais pequenos. Elaborei, então, um pequeno guião onde exponho as principais condicionantes nestas situações.


Certifique-se que dorme

Este é um dos primeiros pontos que analiso na minha consulta quando as preocupações são as birras dos mais pequenos. É muito importante que estejam salvaguardadas as condições necessárias para que a criança tenha um sono adequado à idade. Criança com sono em atraso terá sempre uma maior dificuldade em regular as suas emoções.


Encha de mimo

Mas não se confunda, não encha a criança de coisas que ela pede, ou de oportunidades para que seja ela a decidir ou mandar lá em casa. O mimo de que falo é o afeto!

Encha-a de afeto, sempre!


Diga não

E cumpra. Ao contrário do que, infelizmente, muito se tem ouvido ultimamente, a verdade é que a frustração é um bem necessário ao desenvolvimento emocional e até social eu diria. Aprender a adiar a satisfação imediata das suas vontades é aprender, também, a regular-se emocionalmente, a respeitar os outros e a viver em comunidade. Diga não, quando necessário, quando fizer sentido. Sem culpa.


Certifique-se que brinca livremente

Bom, este ponto é obvio, não? Claro que todas as crianças têm que brincar! Sim é claro, mas infelizmente são cada vez menos as crianças que brincam em jogo livre, de forma diária. Os horários sobrecarregados dos pais e mesmo dos filhos impedem, mais do que deviam, que as crianças tenham tempo para expressar livremente os seus afetos de forma saudável...através do brincar.


Compreenda as emoções dos seus filhos

Pare para compreender o que a criança sente. Não peça que funcione como um adulto deveria, mas também não deixe que se sinta como um. Diferencie o que é uma tentativa da criança de “mandar nos outros”, de uma tentativa de sentir as inúmeras emoções novas que a criança vai aprendendo a gerir ao longo do seu crescimento. Porque as crianças pequenas precisam de espaço e tempo para aprenderem a regular as suas emoções, e isto só acontece com a experiência e com o suporte dos pais.


Mostre que a ouve

Na sequência do ponto anterior, é importante que o demonstre. Nos momentos em que a criança está a fazer a birra, a prioridade não deve ser que esta acabe o mais rapidamente possível, pois pode precipitá-lo a agir sob impulso e, portanto, alimentar a desregulação, tanto da criança como também a sua. A prioridade recomendo que seja compreender o que o seu filho está a sentir ou a pedir e demonstrar que compreende. Isto não significa que lhe vai devolver o comando para ligar a televisão na hora de ir para a cama, isto apenas significa que ao demonstrar que “vê” o que a criança está a sentir e ao disponibilizar-se para a ajudar a digerir seja lá o que aquela frustração a fez sentir, a criança sentir-se-á mais segura e aprenderá progressivamente a tolerar as suas emoções e a regulá-las.


Reserve tempo com o seu filho

Muitas vezes as crianças manifestam o que sentem de forma pouco adequada, principalmente quando o que sentem é algo negativo. Mas a verdade é que, na grande maioria das vezes, as birras são a única forma de conseguir verdadeiramente a atenção do adulto. Analise a sua semana e verifique quanto tempo tem para brincar, conversar e partilhar momentos prazerosos com o seu filho, e se necessário reorganize-a.


Peça ajuda

Infelizmente, vou-me apercebendo que a vasta dimensão de teorias sobre como a parentalidade deve ser vivida trazem muitas vezes mais culpabilidade do que ajuda, pelo grau de exigência e contradição que acarretam entre si. Não se esqueça que viver desafios difíceis ao longo da viagem da parentalidade é expectável e não traduz, de forma alguma, a qualidade na sua função de mãe e pai. Por isso, se sentir que precisa peça ajuda, com todo o direito.


Por Sara Barbot para SIP-Saúde Infantil e Familiar do Porto