• Sara Barbot

Crianças mas pouco ...

Quando penso sobre o modo como o Ensino no 1º e 2º ciclo tem decorrido neste período letivo, muitas são as dúvidas que emergem sem que consiga obter respostas que me tranquilizem. Vários são os relatos das experiências que me chegam de modo formal ou informal, uns concordam, outros nem por isso. Uns querem mais, outros acham demasiado. Uns acham que “tem que ser” outros questionam a utilidade do que “bem espremido” se consegue. Mas todos, sem exceção, venham esses relatos de professores, de pais ou até mesmo de alunos, coincidem em pelo menos uma palavra: difícil!


E eu questiono-me: Porque não terminamos já com esta brutalidade de #estudoemcasa que com a intenção de proteger a nossa saúde física ainda nos dá mas é cabo da nossa saúde mental?

Quando nada nem ninguém, em parte nenhuma do mundo civilizado, funciona na normalidade pré-Covid, permitam-me a expressão, por que raios estamos nós adultos a exigir às crianças este faz-de-conta que a escola apenas mudou de sítio? Não foi só o contexto que mudou, a professora também mudou, a presença dos colegas mudou, e a disponibilidade e estabilidade emocional de cada um, sejam dos adultos ou das crianças, também mudou. E drasticamente eu diria.

Agora são os pais que ensinam e explicam as matérias, que por alguma razão, que a própria razão desconhece, tem que ser nova. Ah sim claro porque há um currículo que tem que ser cumprido...tem? Tem mesmo? Porquê?

Porque transformar os pais em professores, com poucos ou nenhuns recursos do ponto de vista do conhecimento pedagógico para o fazer, e sem lhe ter sido atribuída, por parte da criança, a função de professor, é condenar qualquer método de ensino/aprendizagem ao insuficiente. Dificilmente ambas funções coexistem em harmonia numa só pessoa para uma só criança. Portanto, agora é a mãe ou o pai que numa primeira instância veem o que a criança não sabe e não consegue, ao mesmo tempo que a criança vê os pais, e não o professor e portanto qualquer falha, dúvida ou dificuldade emerge inflacionada pelo medo de desiludir as pessoas que lhe são mais importantes. Não que os professores não o sejam, mas a importância do professor é outra. A autoridade do professor é outra. E definitivamente a relação aluno/professor e pais/filho é completamente outra.

Se leram até aqui muito provavelmente estarão nesta fase já curiosos para perceber se pertenço ao grupo de profissionais que defende que este terceiro período letivo deveria ser eliminado. A minha resposta é não! Mas confesso que não foram poucas as vezes que questionei sobre a necessidade da sua existência nestas condições. E a questão é mesmo essa, o que está mal não é a continuidade do ano letivo no espaço temporal previsto. O que está mal são as condições, ou falta delas, em que este terceiro período decorre.

Meus senhores, desculpem, mas assim não há condições!

Quando a grande maioria dos adultos, face à pandemia e ao isolamento social exigido, adequa e reinventa o modo como desempenham as suas funções laborais nos mais diversos setores, que sentido faz pedirmos aos nossos filhos que não alterem o seu funcionamento face à escola? Como se nada fosse. Como se fosse possível. Porque para terem a mesma capacidade e disponibilidade mental para aprender, então as condições emocionais e físicas teriam necessariamente que estar também asseguradas. E não estão.

Como se espera que num contexto de drásticas mudanças e privações sejam as crianças as que terão que agir exatamente da mesma forma, só que não, e como se não chegasse terão ainda que apresentar resultados custe o que custar?


Não estarão os adultos a descarregar nas mãos das crianças o que lhes é difícil e trabalhoso?


Será mesmo este, e passo a citar, “um sacrifício que se justifica (...) para não sofrer danos irreparáveis (...) para não desistir da Educação”?

Meus Senhores, desculpem, mas é precisamente isso que se está a fazer, a desistir da Educação. Porque a educação escolar pertence aos professores, não aos pais, não da noite para o dia, e definitivamente não às crianças, não sozinhas, por sua conta. Mas claro há sempre quem lhes chame autonomia.

E se, de uma vez por todos a Educação em Portugal se tornasse verdadeiramente educativa?

Esta publicação já vai longa e há tanto ainda para dizer e refletir. Faltou-me partilhar a minha posição e inerentes reflexões sobre como se poderia aproveitar e otimizar o período letivo na vida das nossas crianças. Assim farei na próxima publicação. Faltou-me falar do esforço dos professores e instituições de ensino agora com todos os olhos postos neles. Assim farei numa futura publicação. E faltou-me falar dos alunos com necessidades educativas especiais tantas vezes esquecidos quando mais precisam de ser amparados. Eles e os pais. Assim farei não só numa futura publicação, mas todos os dias enquanto for necessário.

SEJA BEM-VINDO!

Este é o meu espaço pessoal onde poderá conhecer melhor a minha formação e trabalho que desenvolvo na prática clínica.

Sara Barbot

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