• Sara Barbot

Dar ou não dar colo? Eis a questão!

Cada vez com maior frequência são vários os pais que me questionam se devem ou não dar colo aos filhos nas mais variadas situações tenham estes 6 meses ou 6 anos.

Podemos dar colo? Sim. Em que situações? Todas. Até quando? Sempre.

E pronto, poderia perfeitamente terminar aqui este artigo e ainda assim constituir um dos mais completos que já escrevi. É que é assim de simples.

Não há, nem é compreensível que haja, qualquer razão para se considerar o colo como algo contraproducente no crescimento dos nossos filhos. Mas infelizmente tem sido crescente a perspetiva de que “colo a mais” prejudica o desenvolvimento emocional das crianças e portanto cada vez mais são os pais que intoxicados por terceiros, ficam inseguros em relação à “quantidade” de colo a dar, receando que possa trazer algum tipo de maleficio ao seu filho.

Receiam que fiquem mimados, dependentes, e que não cresçam emocionalmente.

Recordo há não muitos meses atrás, ter visitado um recém-nascido com pouco mais de 24 horas de vida. No quarto, ainda na maternidade, estavam alguns familiares. Uma tia entusiasmada com o seu primeiro sobrinho, manteve-o no colo enquanto lhe falava. Não tardou para que um dos familiares prontamente lhe sugerisse que o pousasse “não vá o menino se habituar ao colo”.

E esta perspetiva, que atualmente tem ganho cada vez mais expressão, não poderia estar mais errada. Uma criança criada num seio onde abunde o afeto e o amor inequívoco será, necessariamente, uma criança com maior tendência para se tornar segura e autónoma e, portanto, menos dependente e mais capaz. Capaz de explorar o meio, capaz de se afastar sem angústia, e capaz de adquirir novas competências e amigos.

Afirmações como estas, que aludem aos malefícios do colo, podem interferir seriamente, aqui sim de forma negativa, com o padrão relacional que se está a formar, principalmente em pais de primeira viagem. O bebé que chora porque necessita de colo e se acalma quando o recebe não é um bebé “com manhas”. Pelo contrário, é um bebé seguro do amor dos seus cuidadores e isso é só positivo.

Estou convencida também que há, hoje em dia, uma grande confusão conceptual das palavras verbalizadas no quotidiano. O colo, aquele gesto físico onde acolhemos a criança nos nossos braços e lhe proporcionamos um espaço de segurança e harmonia, é não só benéfico como desejável sempre que o bebé ou a criança necessitam. Seja porque é bebé e não consegue adormecer sozinho, seja porque está naquela fase dos 2 anos em que as birras são a sua ferramenta mais eficaz de comunicação, seja porque se chateou com as amigas na escola e apesar de já ser crescida não há nada como o colo da mãe.

Para compreender melhor o impacto do colo no desenvolvimento do bebé e da criança vejamos o seguinte:

- o bebé chora sempre por um motivo, podendo estar relacionado com alguma necessidade como fome, mudança da fralda, sono, desconforto físico, etc. É a única forma comunicativa que o bebé possui nos primeiros meses de vida. E em nenhuma situação o faz por “manha”, como é habitual dizer-se, ou para chatear os seus cuidadores. Do ponto de vista cognitivo, não é sequer possível!

- o bebé nasce totalmente dependente do outro, passando de um ambiente protegido, o útero, para um ambiente multissensorial com constantes desafios e exigências distintas ao longo da sua adaptação a este novo mundo. Os cuidadores são a fonte principal de segurança e “digestão” de todas essas sensações e emoções provenientes destas experiências.

Não apoiar o bebé nesta adaptação, desrespeitando o seu ritmo e necessidades e forçando uma autonomia relacional, corre-se sérios riscos em não só prejudicar o desenvolvimento de um vínculo saudável como consequentemente danificar a capacidade futura daquela criança em gerir o que as diversas experiências relacionais lhe fazem sentir e consequentemente danificar a sua capacidade em estabelecer novas relações saudáveis.

Simplificando, uma das principais funções da mãe e outros cuidadores, é de interpretar e digerir todo aquele choro, ajudando-o não só dissolver essa angústia mas também a proporcionar experiências emocionais positivas no recurso ao outro e a dar sentido aos seus sentimentos. E esta função é tão importante como alimentar ou salvaguardar a higiene do seu filho.

“Se calhar é melhor pousá-lo não vá o menino se habituar ao colo” disse-lhe ela. “Habituar a quê? A sentir-se amado? Espero sinceramente que sim!” respondeu-lhe a tia.

E numa só frase, cheia de segurança e muito amor, foi resumido ao essencial a importância do colo.

SEJA BEM-VINDO!

Este é o meu espaço pessoal onde poderá conhecer melhor a minha formação e trabalho que desenvolvo na prática clínica.

Sara Barbot

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