• Sara Barbot

De que cor é a maternidade?

Sentada num desses restaurantes de fastfood que existem em frente ao consultório na meia hora habitual de almoço ouço duas amigas na mesa ao lado a conversarem sobre as suas experiências enquanto recém-mães. Uma delas descrevia o quão difícil tinha sido, do ponto de vista emocional, os primeiros meses. Não tanto pelas exigências inerentes ao recém-nascido mas principalmente por não se sentir vista enquanto pessoa individual. Nas suas palavras, na gravidez sentia-se “a pessoa mais importante do mundo” com toda a atenção dos que lhe eram próximos dirigida a si, algo que sentiu ter mudado drasticamente quando o bebé nasceu. O mais difícil, dizia, tinha sido lidar com o facto de se “ter tornado invisível”, todos os olhos eram postos no bebé, já ninguém lhe perguntava se ela “precisava de alguma coisa ou como estava”. Lembrei-me da minha irmã, que acabava de ser mãe pela primeira vez há poucos dias e questionei-me se se sentiria assim. Lembrei-me de mim, e lembrei-me de todas as mães que me procuram. Porque a maternidade, dizia ela à sua amiga, “a maternidade não é tão cor-de-rosa como dizem”.


Mas então se não é rosa, de que cor é a maternidade?


A maternidade é de facto frequentemente pintada a cor rosa, ou pelo menos a cores pastel daquelas que transbordam harmonia, tranquilidade e beleza. Raramente se expõem as dificuldades inerentes a este novo papel de ser mãe. Papel esse que não se limita a somar-se a todos os outros já constituintes da mulher. Este é diferente. Este muda. A maternidade não se acrescenta, a maternidade transforma. Transforma o que se ama e como se ama. O que se receia e como se receia. O que se vive e como se vive. E transforma quem se é. No corpo e na alma. E no minuto que o bebé nasce tem-se um filho, mas o nascimento da mãe, esse é bastante mais longo. É o nascimento de uma nova identidade nem sempre reconhecível pela própria com facilidade, e que muitas vezes espera que chegue o dia em que se sente ela novamente. Mas o “ela” agora é outra coisa. É uma viagem dotada de aprendizagens progressivas, onde ao longo do caminho se sente o sol e a chuva, se sobe montanhas e se respira nas planícies, se abraça e se berra, se chora e se ri e se tenta... sempre se tenta. Porque ser mãe tem muito pouco do que se decide ter e muito mais do que se consegue ser. Planear passa a existir apenas no plano do desejo e a sobrevivência por seu lado ganha todo um outro significado.


A maternidade transforma a mulher, mas nem sempre esta transformação é realmente sentida pelos os que a rodeiam. A maternidade é muitas vezes uma corrida para não perder os deadlines laborais, para não perder os eventos escolares e para não se perderem a si mesmas. E tudo isto pode ser demasiado assustador demasiado solitário e demasiado exaustivo. Como é esperado que as mulheres trabalhem como se não tivessem filhos e sejam mães como se não trabalhassem? A maternidade pode ser muito difícil e ninguém fala disso. Muita pouca gente o mostra. Benditas aldeias, redes de suporte compostas de família e amigos que lhes estendem os braços como fontes de ajuda, de compreensão e de lugar. Mas e quando não há? Quando rareia? Bom aí a cor é outra.


E depois há o tempo, o tempo deixa de ser nosso, deixa de ser ao sabor do que se precisa e passa a ser fragmentado, interrompido. No trabalho, no café, na casa-de-banho.


E o coração? Esse deixa de viver no nosso corpo. Mas bate como nunca.


A maternidade é de facto frequentemente pintada de cor-de-rosa. Mas na verdade é composta por uma diversidade de cores. É colorida, mas não como um arco-íris. Nem sempre trás só felicidade e nem sempre realiza os nossos desejos. E consegue, de forma única, ser tanta coisa ao mesmo tempo.


Sara Barbot

Psicologa Clínica

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Este é o meu espaço pessoal onde poderá conhecer melhor a minha formação e trabalho que desenvolvo na prática clínica.

Sara Barbot

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