• Sara Barbot

E quando o luto é na criança?

A morte de alguém que nos é querido é um evento de vida marcante em qualquer fase da nossa existência. Mas quando o luto é experienciado pela criança, este ganha contornos específicos que o diferencia em diversos aspetos do luto passível de ser elaborado pelo adulto.

A noção do tempo, dos conceitos de “nunca” e “sempre” e o predomínio duma vivência diária no mundo da fantasia, são algumas características que devemos ter em conta quando estamos perante uma criança em luto.

Um outro aspeto crucial é que geralmente, no caso das crianças, os cuidadores estão também eles próprios em luto, podendo interferir significativamente com a sua capacidade em lidar com as exigências e expressões emocionais por parte da criança, geralmente acompanhadas com perguntas que os adultos podem ter dificuldade em responder de forma que as sacie.

Mas quando o falecimento é de um dos progenitores, o luto da criança torna-se ainda mais complexo. Não só pela perda de uma das pessoas mais importantes e essenciais, mas porque trás consigo uma ameaça à dupla perda. O progenitor que morreu, e o progenitor que está ele próprio mergulhado num luto difícil e, portanto, provavelmente menos disponível.

São frequentes os sentimentos de desamparo, uma vez que é nos pais que as crianças canalizam o seu maior investimento emocional. Mas também porque os confronta precocemente com uma realidade frágil e dolorosa que destrói a idealização que construiu dos pais, idealização essa tão importante numa determinada fase da infância.

Por vezes, pode-se, ainda, identificar sentimentos de grande culpabilidade: “Se me portasse melhor não teria tido aquele ataque cardíaco”. Ou de zanga e de abandono: “Se gostasse de mim não andava de mota tão rápido”.

Infelizmente, os processos de luto por parte de crianças são processos demasiado complexos para que possa enumerar de forma simples estratégias promotoras da elaboração do luto. Depende da idade, do grau de parentesco/intimidade com o falecido, a causa da morte (repentina ou patologia prolongada) e as próprias ferramentas emocionais de cada criança.

Mas há algumas premissas transversais a todas as situações que podem ajudar a saber o que NÃO fazer:

1) Não esconder que a pessoa morreu;

As crianças regem-se muito mais pela comunicação não-verbal do que pelo verbal. Quer isto dizer que rapidamente a criança sentirá que os adultos não estão bem. Que algo não está bem. Deste modo, é importante dar um sentido ao que está a acontecer e não criar mistérios que tornarão tudo mais assustador.

2) Não fazer grandes alterações na rotina da criança;

Quanto mais próxima da criança é a pessoa que morreu, maior será a probabilidade de haver a necessidade de alterar as rotinas diárias. No entanto, é importante restringir estas alterações ao mínimo indispensável de modo a evitar mais perdas e aumentar a sensação de desamparo.

3) Não impedir que a criança chore ou fale na pessoa falecida;

Muitas vezes, inadvertidamente, os adultos, principalmente quando em luto também, passam a mensagem que é doloroso falar sobre o ocorrido, sobre a pessoa que morreu ou simplesmente chorar a perda. Esta mensagem retira o espaço para que a criança possa expor as suas necessidades neste processo, não permitindo que possa ser vista e ouvida no seu sofrimento.

Dar tempo ao tempo, voz ao choro, sempre com o apoio adequado, é crucial para que a criança possa fazer o seu luto. Lembrando-se sempre que não é possível elaborar um luto sem sofrer a perda.

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Este é o meu espaço pessoal onde poderá conhecer melhor a minha formação e trabalho que desenvolvo na prática clínica.

Sara Barbot

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