• Sara Barbot

Terapeutas? Eu chamo-lhes outra coisa...

Ao fim de 15 anos de profissão continuo a receber crianças que foram mal-tratadas por auto-designados terapeutas. Crianças e famílias que ao procurar ajuda nas suas fragilidades encontram incompetência e hostilidade em quem os deveria ajudar. Hoje escrevo pela Laura e para a terapeuta que ela encontrou antes de mim...


Há poucas semanas recebi em consulta uma família que procurava apoio terapêutico para a filha que tinha sido diagnosticada com uma Perturbação Global do Desenvolvimento. Mas não era a primeira vez que estavam a pedir ajuda. Aliás, apesar do início do processo terapêutico ser ainda recente, havia já a necessidade de procurarem outra terapeuta. Não por falta de confiança, mas precisamente por terem confiado na pessoa errada.


A Laura, uma menina de 4 anos de idade, aparenta uma beleza comparável a de uma boneca. A Laura, uma menina com beleza de boneca, não fala. Não brinca. Não come sólidos. Os pais da Laura desde cedo identificaram que o desenvolvimento da Laura não estava a ocorrer com a espontaneidade e ritmo esperados. E procuraram ajuda. A certa altura, numa das nossas sessões contam-me como eram as sessões da terapeuta antes de iniciarem comigo.


Portas fechadas, pais fora da sala, e a filha presa numa cadeira com cintos.

Não, não estou a descrever um episódio de uma série qualquer de ficção. A mãe da Laura, foi colocada fora da sessão da filha. Parece que era uma daquelas mães muito ansiosas que atrapalham as sessões terapêuticas sabem? Pois, nem eu! A mãe, preocupada e atenta como é, não conseguia ignorar o choro incessante e recorrente da filha quando esta se apercebia que seguiam o caminho para a terapia. E quis entrar. E entrou. E percebeu. A Laura era colocada numa cadeira, presa com cintos, para que a terapeuta pudesse ensiná-la a … bom sei lá o quê que se ensina a uma criança nestas condições para além de que os adultos não são de confiança e magoam.


Porque a Laura não fala, mas a Laura sente!


E eu, gelada, a ouvir os pormenores dessas denominadas sessões terapêuticas, lembrei-me dos pais do Salvador, do Renato, da Rita…e de tantos outros que tiveram estas mesmas experiências com diferentes terapeutas.


Bom, eles denominam-se terapeutas…Eu cá chamo-lhes outra coisa!


Sara Barbot

Psicologa Clínica