• Sara Barbot

Uma andorinha não faz a Primavera!

Numa sociedade onde se procura que tudo seja célere e instantâneo não se percebe como, no que respeita ao neurodesenvolvimento infantil, ainda impere a premissa do “esperar para ver”, para além do que poderá ser inócuo. Quando inúmeros estudos demonstram de forma indubitável a importância da intervenção precoce no prognóstico e evolução das situações clínicas inerentes às alterações de desenvolvimento, revela-se, do meu ponto de vista, inaceitável a recomendação de ignorar a capacidade dos especialistas em discriminar o que é motivo de preocupação clínica e o que se enquadra na oscilação normativa do espaço temporal para a aquisição de competências especificas.


Embora estas situações ainda ocorram nos espaços dos mais diversos profissionais, a verdade é que nos denominados “grupos de mães” pratica-se maioritariamente o culto da “andorinha”. Não me interpretem mal, nestes grupos encontra-se pessoas cheias de valor, com uma enorme criatividade na resolução de situações do dia-a-dia inerente à parentalidade e cuja utilidade de partilha de experiências revela-se muitas vezes de um proveito precioso. Seja na sugestão de complexos turísticos com condições de excelência para receber crianças (que cá entre nós pode fazer toda a diferença), seja na partilha de experiências do “lado B” da maternidade para que cada uma não se sinta tão só nas suas dificuldades, passando pela recomendação de especialistas criando uma unanimidade que tranquiliza qualquer um no seu recurso.


Contudo, face à exposição de uma preocupação de alguma mãe relativamente ao desenvolvimento do seu filho é quase certo que a grande maioria das mães responderá à luz da sua experiência individual, extrapolando de tal forma como se fosse verdade absoluta para todos, ignorando que incentivam à não valorização do que poderá ser crítico avaliar em tempo útil. Então se algum destes comentários, tão levianamente fornecidos coincidir com a opinião daquela tia que tem 5 filhos e todos se desenvolveram “ao seu ritmo”, aí está o caldo entornado.


Na tentativa de não alarmar, justificado com um “agora quer-se tudo para ontem” e “cada um tem o seu ritmo” não se dão conta que se invalidam as preocupações expostas, podendo mesmo induzir alguma dose de culpabilidade por acreditarem que ora estão a ser demasiado exigentes ora não estão a conseguir ser tão bons pais quanto os restantes, ignorando-se também que, na verdade, uma grande maioria das crianças cujos pais se preocupam carecem de facto de ajuda clínica para ultrapassar as suas dificuldades. Caso essa ajuda não seja obtida em tempo útil dá-se espaço para que as dificuldades se cristalizem e o prognóstico evolutivo não seja tão favorável.


A plasticidade neuronal, e consequente capacidade de nós terapeutas fazermos diferença na nossa atuação é completamente diferente com uma criança de 18 meses, de 3 anos ou de 6 anos. Quer isto dizer que uma criança de 6 anos terá uma margem pequena para evoluir? Nem pensar! Mas quer dizer que a idade com que se inicia uma intervenção terapêutica neste âmbito faz toda a diferença. Os colegas especialistas que me perdoem a analogia simplista, mas sabem aquela plasticina tão moldável quando acaba de sair do frasco? Pois bem, quanto mais tempo fica estagnada fora de condições favoráveis, mais difícil será de moldá-la de forma a otimizar a sua capacidade de ganhar forma. Bom, é mais ou menos a mesma coisa.


Benditas “mães ansiosas” que não se deixam levar por opiniões de bancada e procuram o melhor para os seus filhos! Benditos clínicos sérios e competentes que se revelam fundamentais na orientação destas famílias! Porque numa sociedade onde a informação flui com tanta facilidade, nunca vi tanto macaco fora do seu galho e tanto tempo perdido resultado de ignorância.


Portanto, em caso de dúvida procurem um especialista, sigam as suas recomendações e caso as vossas preocupações não exijam intervenção clínica tanto melhor. É isso que todos querem ouvir. É isso que gostaríamos de dizer a todos. Quem nos dera que as nossas consultas fossem sistematicamente preenchidas com boas notícias. Mas caso seja necessária intervenção, ficam com a certeza que a procuraram atempadamente e que isso por si só contribuirá para um prognóstico mais favorável.


Porque uma andorinha não faz a Primavera, e perguntar a quem sabe sempre foi sensato e prudente.

SEJA BEM-VINDO!

Este é o meu espaço pessoal onde poderá conhecer melhor a minha formação e trabalho que desenvolvo na prática clínica.

Sara Barbot

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